09/07/2013 - Por Mari Alencar  
  Para além do atendimento médico  
  Arquivo Projeto Canudos
 
 
Na segunda-feira 01/07 passamos o dia na Fazenda Chora Menino, ainda região de Canudos Velho do sertão baiano, mas uma população ainda mais carente e distante dos serviços de saúde e com tão recente conquista de energia elétrica – faz apenas 8 meses que a luz chegou lá.

O dia foi corrido, atendemos por volta de 50 pessoas. 50 pessoas ansiosas e muitas vezes sedentas não por atendimento médico propriamente dito, mas por uma simples atenção. Alguém para apenas os ouvir e enxergar.

E por mais que achássemos que fôssemos tratar inúmeras patologias, os atendimentos demandavam prioritariamente apenas orientações que para nós acostumados com a vida urbana abastada parecem ser básicos e óbvios – como o simples fato de escovar os dentes e não compartilhar escovas. De lavar as mãos. De se alimentar melhor.

A realidade deles é bem diversa – e que fique claro o fato de isso não significar bom ou ruim. Mas foi constante o nosso policiamento para orientar os pacientes – como aconselhá-los a comer melhor quando a plantação já não vinga há 2 anos por causa da seca. Ou simplesmente mencionar “banheiro” quando o mato é o local para esse fim e nem esgoto se tem.

No final do dia, após a palestra sobre a escovação dentária pela odontologia de nossa equipe ( e vale ressaltar que os pais estavam tão ou mais admirados e atentos à palestra se comparados aos seus pequenos filhos. Eles estavam aprendendo tanto quanto aquelas crianças. Tudo era muito novo!), nos programamos para projetar um filme na parede da escola. Filme que para muitos já é tão corriqueiro, para aquelas pessoas era uma novidade tão fascinante. E ninguém arredou o pé em momento algum enquanto arrumamos nosso cinema à céu aberto: as poltronas eram as carteiras da escolinha. O telão era a parede descascada. O teto e os lustres eram o céu encantadoramente estrelado sob o luar. Sentamos quase todos em fileiras. Os olhos brilhavam e os sorrisos contagiavam. Eles estavam contentes com a visita. Era bonito de se ver!

As crianças, por demais carinhosas e amorosas, saltitavam pra lá e pra cá entusiasmadas com a noite de festa. De repente nos vimos rodeados de um monte delas que nos abraçavam sem hesitar. Perguntamos a elas se elas já haviam assistido a um filme. Elas responderam de prontidão que não. “Então o que vocês acham que é um filme?”, elas riram tímidas e ansiosas repletas de imaginação inocente. Quando um garotinho respondeu sem dúvidas “É um boneco bem grande!”. E então, no mesmo embalo, os outros também começaram a suspeitar ansiosos que o filme era “um carinho”, “uma boneca”, “um monstro”. Foi emocionante ver o olhar inocente curioso e iludido daquelas crianças frente a um momento tão único e que certamente ficaria marcado para sempre naquelas mentes pequeninas. Então explicamos o que vinha a ser o tão almejado filme… E elas ficaram ainda mais ansiosas para conferir. O momento tão esperado chegou. Distribuímos pipocas e suco a todos. O entusiasmo era incomparável. A energia era radiante. A plateia exalava emoçã!

O filme começou. A plateia gargalhava tão facilmente com as peripécias musicadas de “blue” de “Rio”. E mais emocionante do que presenciar as crianças se esbaldando de alegria era ver que os adultos e velhinhos se esbaldavam ainda mais: vidrados sem piscar os olhos e à rir escancarados, deslumbrados com aquela curiosa maquinaria. Os olhos dos avós também brilhavam e era bonito de constatar tamanho luzir contagiante. Eles estavam vivendo ali a infância que não puderam ter por intercorrências da vida. Aprenderam a ser tão rígidos e embrutecidos que diversão era luxo demais, algo tão distante! Nunca souberam o que era brincar. E mais do que isso, o que era se permitir imaginar!

Naquele dia as crianças abriram uma caixinha de surpresas. E os adultos se amoleceram tão inesperadamente – os adultos viraram criança pela primeira vez.

Foi gratificante para nós presenciar essa magia e ver que precisamos de tão pouco para sermos felizes. Que são as pequenas coisas que têm o verdadeiro valor. Tudo era muito para eles. Aquela noite os deixaram eternamente agradecidos e certamente jamais esqueceriam de cada um de nós. E nós jamais esqueceremos dessa experiência tão valiosa!
 
 
     
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