18/07/2013 - Por Mari Alencar  
  Experiências e existências  
  Arquivo Projeto Canudos
 
 
Agora já de volta à São Paulo e também já com saudade daquela terrinha linda e daquele povo caloroso, sinto-me no dever de escrever sobre algumas considerações finais. Foi gratificante estar lá. E mais do que ajudar, ser ajudada. Ver pessoas tão simples, tão humildes, mas felizes, dispostas a nos oferecer o impossível e por demais calorosas, nos recebendo tão bem! Aquele povo sofrido, com tantas necessidades e limitações tem muito o que nos ensinar, pois com muito menos que a gente eles são muito mais felizes. Tudo é motivo de festa. Tudo é uma grande piada. E logo se esquece dos problemas da vida e se faz gargalhada.

E em meio à tanta natureza (embora a triste escassez de água severa retardando já por 2 anos a plantação de subsistência) me senti tão bucólica quanto Alberto Caeiro. Longe de tudo e de todos, sem toda parafernália tecnológica que nos sufoca e sob um céu límpido tão imenso e tão colorido… Só pude ter a certeza de que na verdade não precisamos de nada além da natureza e de viver o momento presente – sábio Alberto Caeiro quando diz que o que vem além da curva está para além da curva e somente isso. O que precisamos está ao alcance de nosso olhar. E Deus é toda essa existência: o solo, o sol, a árvore, os animais (compartilhando nesse aspecto da mesma opinião que o filósofo Jean Paul Sartre). O resto é supérfluo. E pude saborear meus poucos dias num lugar tão cheio de existências. Porque em São Paulo não temos tempo para enxergar as existências. Não temos tempo para o simples tão escancarado.

O coração acalmou nesses valiosos 15 dias da minha vida. E pena que foram tão finitos. Tão contados. Com um gosto de quero mais. Acabou mas continuou dentro de mim e sempre estará aqui. Assim como constatou poeticamente Clarice Lispector: “Não há eternamente. Mas também não há o término. É impossível aprofundar-se da vida. Ela é área. Um hálito leve”.

E ontem, mostrando as fotos para meus pais, me deparei com os vídeos engraçadíssimos de Dona Nair: mulher arretada que fala o que lhe vem à mente, sem medo de recriminações. Sem regras impostas. E então lembrei das suas peculiaridades, em sotaque baiano arrastado e jeito forte de impor as palavras: “Gripe com melancia dá bronquite”. Afirmou certa, alertando-nos (minha equipe de PSF em Canudos Velho: Pri, Luciene, Felipe e eu) para que fossemos cautelosos em jamais chupar melancia gripados. Contando sobre as estranhezas dos seres humanos ela disse que “Coração de gente é terra que ninguém anda!”. Sábias palavras. O ser humano é abstrato e subjetivo em qualquer que seja o lugar do mundo. A pessoa que presta não ignora as coisas não. Quem ignora não vale nada.” E depois falando de quem não valia nada contou um causo e finalizou: “O homi morreu tremendo porque roubou dinheiro de santo”. Reclamou do açude que nunca mais enchera. Recobrou da época das plantações fartas, quando tinha até peixe por lá. E, por fim, ahou um absurdo não ter sanfona nas festas modernas de São João. Porque nada era melhor que dançar um belo forró pé de serra sanfonado. A cidade já não era mais a mesma: Aonde havia ficado as sanfonas sertanejas baianas? Aquela senhora que presenciara já tanta história na Canudos Velha tinha muito o que nos ensinar. Do jeito esculachado e engraçado típico do baiano de raiz, ela ainda fez questão de nos oferecer melancia. E naquele calor de sol à pino, ainda que em pleno julho, foi como um remédio santo. Ainda bem que não estávamos gripados!

Gostei demais de ir à Fazenda Chora-Menino também, com uma realidade ainda mais diversa da nossa aqui. Lá não havia banheiros nem esgoto. A luz elétrica, uma grande conquista, havia chegado fazia apenas 8 meses. As pessoas viviam prioritariamente de apenas subsistência e bolsas auxílio do governo. Tudo lá era sustentável (com exceção do lixo industrializado queimado), perfeitamente aproveitado: O bode, por exemplo, era usado para obter carne e tripas para as refeições cozinhadas em forno à lenha, o couro era tratado para se transformar em bolsa ou cela de jumento, a gordura era reaproveitada para outros alimentos e o que sobrava era ainda adubo. Nas casas, bem simples, se via o costume de limpeza diária e o minucioso cuidado – as panelas, por exemplo, eram invejavelmente ilustradas e brilhantes, de dar orgulho. Ainda que fossem amassadas pela má qualidade do metal, eram impecavelmente reluzentes. Muitas casas ainda eram de pau-a-pique. E é curioso para nós leigos que encontramos tudo pronto o como se consegueerguer uma casa inteira com barro e madeira. Quem teve aquela brilhante ideia e a fez durar tanto? E são casas tão fofas. Parecem de desenhos.

Com certeza são grandes conflitos de realidade, que nos acrescentam por demais nossa alma e nossas definições pré-fabricadas pela sociedade e simplesmente acatadas sem prévia avaliação. Nenhum jeito é bom ou ruim. Certo ou errado. Mas jamais devem deixar de ser devidamente considerados e valorizados. Todas as pessoas têm seu valor e incrivelmente somos todas as mesmas – temos a mesma essência e as mesmas necessidades – estando em Canudos ou em São Paulo. Todos nós precisamos preencher a alma e somos vulneráveis ao coração. Com água ou sem água. Dançando forró na terra batida ou música eletrônica no chão luminoso. Comendo cuzcuz ou doritos. Andando a pé no sol ou de carro na chuva. Trabalhando na roça ou num hospital enfurnado. Somos iguais. E se soubermos aproveitar as coisas, percebemos o quão valiosas são as coisas mais simples.

E bate uma saudade! Lembro dos caminhões-pipa preenchendo as casas. Da festa de São Pedro que abarrotou a cidade de gente festeira. Do sorriso acalentador, puro e sábio de mainha, Dona Miúda. Das refeições na casa da TonTon com toda a equipe. Dos banhos a jato gelados pela noite. Do mosquiteiro a cobrir eu e minhas maninhas Joice e Débora enquanto dormíamos. Do sino constante dos bodes. Do cantar do galo de manhazinha. Das músicas bregas a tocar. Daquele céu imenso parecendo pintura de quadro. Daquela ventania forte. Das confraternizações na sede ou no bar da TonTon. Da engraçada taberna da guria ou do recanto dos guerreiros para fofocarmos no final do expediente. Da bonita roda de conversa da psicologia. Do lindo filme produzido pela comunicação de nossa equipe, cujos atores eram os moradores. Do céu impressionantemente estrelado pela noite canudense. Do filme “Rio” e das crianças saltitantes da Fazenda Chora-Menino. Das fofas crianças canudenses – Juju, Jojó, George, Emily, Moisés, Alexandro… Das mainhas crinhosas e dedicadas – uma família de verdade. E mais tantas outras coisas que ficarão guardadas no coração!

Foi ótimo trabalhar com essa equipe linda! Todo mundo muito divertido e prestativo. Pessoas com um objetivo em comum, certo em alcançá-lo e fazer dar certo, visando uma agradável convivência. Fico feliz com as novas amizades e ainda sinto, na verdade, que devíamos conviver ainda mais…Deu muito certo e todos deixaram saudades! Foi definitivamente uma grande e inigualável experiência de vida! Só tenho a agradecer.
 
 
     
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