27/06/2014 - Por Carlos Vinícius Dias, estudante do 7º período de Psicologia  
  Projeto Canudos: desenvolvimento humano no sertão da Bahia  
  Foto Raquel Munhoz
Carlos Vinícius Dias após atividade em parceria com a escola
 
 
Potencializar a comunidade para torná-la autossustentável é o grande objetivo do Projeto Canudos. Por comungar dos mesmos ideais resolvi fazer parte dessa ação.

Participo do Projeto pelo segundo ano consecutivo. Quando me propus a vir, percebi que a mudança cultural só seria possível se pensada a longo prazo, devido principalmente, às condições geopolíticas do local.

A atuação acontece no vilarejo Canudos Velho, localizado no município de Canudos. Por estar na região semiárida brasileira, onde as condições de sobrevivência são escassas pela falta de recursos hídricos e ausência de políticas públicas, todo o desenvolvimento humano fica prejudicado causando grande vulnerabilidade social. Não há serviços de saúde em Canudos Velho. A educação também é precária. Alunos e professores sofrem com a falta de apoio, capacitação e recursos materiais nessa área.

Com tanta carência, a comunidade está acostumada com o modelo assistencial. Eles recebem auxílios sociais do Governo, como o Bolsa Família, e sobrevivem basicamente dessa renda. Isso vai muito além desta comunidade, faz parte da cultura nacional.

Inicialmente o Projeto estendeu essa prática ao oferecimento de atendimentos clínicos em diversas especialidades como medicina, odontologia e exames laboratoriais. Porém, conscientes de que o atendimento assistencial é apenas paliativo. O objetivo é propor mudanças que partam das pessoas do local, mas sentimos resistência por não saberem como lidar com esse novo modelo.

É aí que começa o trabalho da psicologia que atua de forma multiprofissional caminhando com as diversas áreas do Projeto. Esse trabalho tem papel fundamental no processo de capacitação. É uma visão diferenciada ao assistencialismo por olhar para saúde de forma mais ampla que simplesmente ausência de doenças. Mais do que a ausência de doenças, é trabalhar o conceito de relação do homem com o meio.

Isso também vai de encontro com a própria formação do Brasil e da população local que é remanescente da Guerra de Canudos. O conflito aconteceu no fim do século XIX, liderado por Antônio Conselheiro. Canudos Velho é uma comunidade que tem problemas sociais como qualquer outra, porém com recursos psicológicos para lidar com suas dificuldades. Relacionamos isso ao histórico da população oriunda de um pós guerra e das próprias condições de vida no sertão.

O trabalho da psicologia começa com minha coordenadora de área, a professora Gleise Arias, que antes da operação realiza viagens precursoras para levantar diagnósticos. Isso ajuda muito pois nos fornece dados importantes para abordagem e intervenção. Desta forma, o Projeto se reverte em uma extensão efetiva onde temos a possibilidade de vivenciar aspectos estudados na universidade em contexto totalmente diversos ao qual comumente se apresenta nos cursos ao longo da formação profissional.

Quando cheguei, minha expectativa era enorme. Tinha dúvidas de como atuar na comunidade e como seria recebido. Mas logo no começo a ansiedade foi embora e me senti confortável. Isso acontece porque a comunidade é aberta e acolhedora o que também demonstra grande potencial de saúde psicológica.

A relação do aluno do Projeto de Extensão com as pessoas da comunidade se constrói naturalmente. São 17 dias de operação em que, inevitavelmente, estabelece-se um vínculo, que é reforçado pelo modelo de hospedagem. Enquanto ficamos em Canudos Velho, hospedamo-nos nas casas dos próprios moradores, mulheres que nos recebem como filhos e acabam se tornando nossas mães.

Esse foi o primeiro Projeto de Extensão que participei, antes só havia atuado em ações pontuais em localidades carentes. Com Canudos pude ver que para atingir o outro é preciso um olhar humano e cuidado com as relações. Afinal esses contatos deixam e trazem marcas.

A relação deve ser genuína e não superficial. Mudei meu jeito de lidar com as pessoas e pude desenvolver empatia a partir dessas experiências percebendo que existem questões intrínsecas em cada um. Entre conceito e prática, existe o limite do eu. Hoje sei até onde posso ir, o que falar e como me colocar, pois tudo que faço gera efeitos permanentes e impactantes nessas pessoas, no desenvolvimento delas e do coletivo.

O que move minha participação é a fé no ser humano, pois permite a contribuição para nosso país e o mundo evoluam continuamente. Acredito que temos um potencial gigantesco, cada vez que deixamos uma plantinha para crescer, geramos uma evolução humana absurda e todos só têm a ganhar.

Não é possível falar em desenvolvimento sem trabalhar aspecto humano. Se projetos desse tipo fossem multiplicados para diversos locais poderia diminuir os índices de violência e aumentaria o nível de consciência cidadã, fazendo com que as pessoas se apropriassem dos seus direitos.

Temos muito a caminhar no sentido de evolução humana, mas isso acontece a passos curtos para impacto sociocultural.O mais importante são os efeitos da intervenção, sendo estes frutos do trabalho na promoção da saúde. Ajudamos porque somos cidadãos e a comunidade que estava acostumada com o modelo assistencial, gradualmente vem aderindo a essa nova forma de pensar saúde.
 
 
     
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