04/07/2014 - Por Izabela Aparecida de Souza, estudante de letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie  
  Faça tudo o que puder  
  FOTO Janaina Marquesini
”Só o verdadeiro humano é capaz de sentir e vivencia
r momentos especiais e reconhecê-los”
 
 
Tem uma citação que eu adoro que diz “Se as portas da percepção estivessem abertas, tudo apareceria para o homem como é: infinito”. Isso foi dito por um poeta incrível, William Blake. Gosto de interpretar esse trecho com uma visão mais humana. Se limparmos os nossos olhos de ideias pré-concebidas e conceitos pré-estabelecidos, veremos pessoas de diversas crenças, etnias, posições sociais que precisam de algo. Todos nós fazemos parte desse grupo.

Às vezes, quando fazemos o bem para alguém, achamos que aquela pessoa que ganha. Mas, na verdade, quem ganha mais é quem faz. Não creio que seja esse o motivo de tanta gente fazer o bem, apesar disso trazer uma incrível sensação de felicidade. A verdade é que não há nada como saber que você causou um gesto ou aproximação afetiva, um sorriso em alguém. Ver as pessoas felizes nos traz alegria. É uma energia contagiante, que mesmo os não adeptos de trabalhos sociais são inspirados.

Depois da experiência no Rondon e do incentivo de alguns colegas de extensão, resolvi participar do Projeto Canudos. Quando fui aprovada, a emoção de receber aquele e-mail foi um misto de felicidade e medo. Felicidade por fazer parte de algo que eu acreditava ser tão bonito e medo por não corresponder às expectativas por ter sido selecionada. Mesmo sendo de outra instituição de ensino, fui recebida muito bem pelas pessoas da Metodista. Essa recepção foi um diferencial para a minha motivação em ir adiante com o projeto do qual tanto quis fazer parte. Não só fui bem recepcionada pela equipe e pelos professores que, vale ressaltar, nem me conheciam, como também ao chegar em Canudos.

Minha mainha, uma pessoa incrível conhecida por Zefinha, tão logo começou a falar desejei ser sua filha. Não foi diferente. Minhas irmãs, com as quais algumas eu já tinha contato, Larice, nossa irmãzinha, e dona Zefinha, tornaram-se realmente uma família para mim, num misto de velhas amigas e novos laços. E, após uma semana, ao pensar nelas, mesmo sabendo que ainda temos alguns dias pela frente, sinto saudades. Saudades do que vivemos, do que poderíamos ter vivido, das conversas, risos e choros. Não só delas, mas de toda a equipe. Dos que já foram, dos que ficaram, dos que são mais próximos e dos que não tive muito contato. De alguma forma, todos me marcaram muito, e os levarei para sempre comigo.

Calma lá! Este não é o final.

Em meio a tanta bondade, eu quis fazer o meu melhor. Assim, porque eles merecem. Como dizia Los Hermanos, “faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz.” E viver em paz, na minha opinião, é fazer o melhor que puder sempre. Talvez essa seja a forma que eu encontrei para me sentir bem, mas acho que é quem eu sou. Assumo compromissos não com as pessoas, mas com meus objetivos, e evoluir é um objetivo geral que tento alcançar sempre com alguns específicos, no caso, a extensão. Não tenho a evolução como um benefício egoísta, que só atinge a mim, e sim coletivo, pois sempre que sou melhor outras pessoas se inspiram, e querem tornar-se melhores também. É o aprender pelo exemplo, o que aprendemos desde pequenos no seio de nossas famílias. E, assim, o coletivo se torna melhor.

Estar aqui é comprovar essa ideia. São indivíduos que almejam melhorar não só o meio em que vivem, mas o país todo. Atuamos em regiões que talvez nunca conhecêssemos sem o Projeto. Locais em que não teríamos nenhum laço afetivo ou não seríamos diretamente beneficiados com nada. E essa é a prova de que a melhora do individuo é essencial para o coletivo, pois, mudando o país, mudamos também a nós mesmos e o resto do mundo. Ganhamos novas visões, novas amizades, novos horizontes, novos sonhos e objetivos.

Nunca me arrependeria de ter decidido vir para cá. Nunca me arrependeria de conhecer as pessoas com quem convivo, de ter visto as cenas que vi, de recomendar o Projeto para os meus amigos, professores, colegas de turma. Foi uma das melhores decisões que já tomei, tão importante como decidir onde cursar a graduação ou o curso que faria.

Sinto falta de projetos de extensão onde estudo, e estar envolvida com algo contínuo, no qual posso criar laços e que posso mantê-los me deixa muito feliz – e emocionada. Sei que chorarei muito ainda por sentir saudade disso quando acabar, mas, enquanto escrevo, temos alguns dias juntos ainda, desenvolvendo atividades para essa comunidade que já amo, estreitando laços, recebendo e doando tudo o que há de melhor nas pessoas: o tal infinito humano, a bondade, o amor.

Ao voltar, tenho várias ideias que pretendo por em prática. Quero sempre manter contato com a minha mainha, com as minhas irmãs, com a Érica que é uma pessoa maravilhosa e que faz um trabalho de mesmo nível com a escola municipal da qual é responsável, com essa comunidade que me acolheu tão bem. Quero fazer o que de melhor puder por eles. Planejar ações, telefonar, saber o funcionamento, traçar dados que chegarem, enfim, tudo o que me for possível.

Pensar em Canudos me lembra de outra região que me marcou muito, o Jardim Kantian, em Itapeva. Acredito que esse zelo e carinho com a comunidade me fortalece sempre. Vê-los é como renovar as energias que até então eu não sabia que estavam esgotadas. Sim, deixamos um pouco de nós em todos e levamos também, mas além da interação, das ações, das memórias e do carinho, algo é maior do que tudo isso, é o elo: o humano.Só o verdadeiro humano é capaz de sentir e vivenciar momentos especiais e reconhecê-los. Minha dica? Abra seus olhos. Veja com alma. Vivencie tudo com todas as emoções possíveis. Faça tudo o que puder. Esse é o relato de alguém que tenta, mas que no futuro quer dizer que conseguiu.
 
 
     
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